João Cândido e o legado da liberdade

A bravura e a coragem de um brasileiro, nascido na então Província do Rio Grande do Sul, no século XIX, foram responsáveis pela transformação da realidade de militares da Marinha de Guerra do Brasil, submetidos a duros regimes de punição.
João Cândido, designado pela imprensa da época como Almirante Negro, defendeu a abolição dos castigos corporais na Marinha, uma das principais motivações da Revolta da Chibata, da qual foi líder, em 1910.
O uso da chibata era um castigo cruel aplicado a critério dos oficiais. Num contingente de maioria negra, centenas de marujos tinham seus corpos retalhados.
Na busca por melhores condições de trabalho e respeito aos marinheiros, João Cândido foi castigado em diversas ocasiões, preso em celas solitárias, chegando a ser expulso da Marinha sob a acusação de ter favorecido os rebeldes. Foi ainda internado como louco e indigente.
Banido da Marinha, sofreu grandes privações, vivendo precariamente, trabalhando como estivador. Discriminado e perseguido até o fim da sua vida, faleceu de câncer, no Rio de Janeiro, pobre e esquecido, em 1969, aos 89 anos de idade.
A mais representativa homenagem, após sua morte, é o monumento inaugurado em 2007 no Museu da República, antigo Palácio do Catete, prédio da Presidência da República, no Rio de Janeiro. A estátua, de corpo inteiro, com o leme em suas mãos, foi afixada de frente para o mar, simbolizando que a mensagem de liberdade do Almirante Negro e seus companheiros de luta resiste. Mais recentemente, foi sancionada, pela Presidência da República, a anistia ao líder negro.
Para resgatar a fascinante trajetória desse homem que reivindicou liberdade e respeito, a Fundação Banco do Brasil elegeu João Cândido como o homenageado da edição 2008 do Projeto Memória, desenvolvido em parceria com a Associação Cultural do Arquivo Nacional, Petrobras e Fundação Assis Chateaubriand.
A primeira ação do projeto é o Premio Nacional de Redação, cujo tema é 'João Cândido e a Luta pelos Direitos Humanos'. Estudantes do ensino fundamental, médio e universitário participam com redações com o mote 'O mar esconde muitos tesouros. A História do Brasil também'. A iniciativa distribuiu R$ 35 mil em prêmios, além de diplomas e viagem à Brasília para a solenidade de premiação.
Desde 1997, a Fundação Banco do Brasil desenvolve o Projeto Memória que, em edições anuais, busca res¬gatar e preservar a memória, o pensamento e a obra de personagens que contribuíram para a transformação social e a construção da cultura brasileira. Além do concurso de redação, integram o Projeto Memória urna exposição itinerante, a produção de livro fotobiográfico e de videodocumentário, o lançamento de um site e a distribuição de kits pedagógicos as escolas públicas do País. Essas ações deverão ser lançadas ainda este ano.
“Glória aos piratas, as mulatas, as sereias
Gloria à farofa, à cachaça, as baleias
Gloria a todas as lutas inglórias
Que através da nossa historia
Não esquecemos jamais
Salve o almirante negro
Que tem por monumento
As pedras pisadas do cais
Mas faz muito tempo...'
[Trecho do samba “O mestre-sala dos mares', dos compositores João Bosco e Aldir BIanc, em homenagem à memória de João Cândido]
Fonte: Informativo Rede Social, Fundação Banco do Brasil, Agosto/08.





